Sou Viviane Reis, artista visual e designer multidisciplinar, e a Pupila é o espaço onde tudo que colecionei ao longo da vida finalmente transborda.
Fui uma criança curiosa, apaixonada pelo barulho da máquina de escrever, pelas revistas gastas de sala de espera e pelas páginas da enciclopédia Conhecer que eu folheava até decorar as imagens. Minha formação acadêmica foi em Comunicação Social e Moda, e trabalhei anos criando digitalmente. Mas sempre fui, antes de tudo, uma colecionadora: de cores, formas, recortes, imagens que guardo sem saber ainda o porquê. Criar com as mãos é a forma que encontrei de continuar tecendo o fio da criança que eu fui.
Trabalho a maior parte do tempo com colagem analógica. Recorto revistas, jornais, moldes de costura, mapas, embalagens e papéis já descartados. Cada peça é uma camada sobre a outra até que uma imagem que já estava dentro de mim apareça. Cada uma termina com um poema curto, escrito à mão, na minha caligrafia, que chamo de garrancho afetivo. Escrevo com a letra de quem sou, fora de linhas e regras, às vezes ilegível, mas sempre na velocidade do que estou sentindo. É um pequeno ato de rebeldia contra a criança que quis obedecer às regras dos inúmeros cadernos de caligrafia que a escola me obrigava a fazer.
Dois símbolos atravessam esse trabalho todo: o olho e a casa. O olho é o que sai para coletar: o que busca, que enxerga, que se espanta, se encanta, se emociona. Já a casa, na colagem, é o que guarda: os afetos, os dissabores, os encantamentos, as frustrações, as indignações, os questionamentos e, sim, o amor. Fui itinerante a vida inteira: já mudei de casa, cidade e país dezenas de vezes. Mas é no papel, devagar, camada sobre camada, que eu finco raízes. Meu corpo é casa. Meus olhos são casa. É essa a defesa do tempo lento que sustenta a Pupila: o gesto manual, o material descartado que volta a significar, o que sobra do olhar cotidiano e que eu recolho.
Atualmente moro em São Paulo, onde crio obras únicas sobre papel, séries impressas em tiragem limitada e livros-objeto que expõem o processo como parte da obra. Se você chegou até aqui, já está dentro da minha casa de papel. Seja bem-vindo, e que seu olho encontre aqui um pouco do que o meu também procura.
Viviane Reis